Pokémon Mythology
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Dragon Lance Dragões Do Crepúsculo Do Outono Pikalove
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Dragon Lance Dragões Do Crepúsculo Do Outono

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Mensagem por mastersan em Ter 17 Maio 2011 - 17:49

Pessoal vou postar essa ''história'' pode ser ''longa'' mas vou colocar espero que gostem

UM GRUPO INCOMUM DE AMIGOS

Tanis Meio Elfo, líder dos companheiros. Um lutador treinado que
detesta lutar, ele é atormentado por seu amor a duas mulheres — a tempestuosa
espadachim

Kitiara, e a jovem e encantadora elfa, Laurana

Sturm Montante Luzente, Cavaleiro de Solamnia, Apesar de terem
sido reverenciados antes do Cataclismo, os cavaleiros caíram em desgraça. O
objetivo de Sturm, mais importante para ele do que a própria vida, é restaurar a
honra da — cavalaria.

Lua Dourada, a Filha do Líder e Portadora do Cajado de Cristal. Seu
amor por um homem banido da tribo, Vendaval, leva os dois a uma perigosa
busca da verdade.

Vendaval, neto de Andarilho. Depois de ter recebido o cajado de cristal
azul em uma cidade onde a morte voou com asas negras, ele mal escapou com
vida. E isso foi só o começo....

Raistlin, irmão gêmeo de Caramon, é um utilizador da mágica. Embora
sua saúde esteja debilitada, Raistlin possui grandes poderes, muito maiores do
que se esperaria em alguém tão jovem. Mas existem mistérios sombrios
escondidos atrás de seus olhos estranhos.

Caramon, o irmão gêmeo de Raistlin, é um guerreiro. Um gigante
amigável, Caramon é exatamente o oposto de seu irmão gêmeo. Raistlin é a
pessoa com a qual ele se preocupa — e também a pessoa que ele teme.

Flint Forjardente, é um anão, um lutador. O amigo mais velho de Tanis,
esse anão idoso considera esses jovens "seus filhos.”

Tasslehoff Pés Ligeiros, kender, "manipulador.” Os kenders, a raça
inconveniente de Krynn, são imunes ao medo. Por isso, parece que a confusão
os acompanha por toda parte.
Aos oito foi dado o poder de salvar o mundo. Mas primeiro, eles têm que
aprender a compreender a si mesmos, e a cada um dos outros.


O Velho
Tika Waylan endireitou as costas com um suspiro, flexionando os
ombros para aliviar a câimbra de seus músculos. Ela jogou o pano do balcão
ensaboado dentro do balde e olhou à volta da sala vazia. Estava ficando mais
difícil manter a velha hospedaria. Havia muito amor esfregado no acabamento
da madeira, mas nem mesmo o amor e a gordura conseguiam esconder as
rachaduras e as trincas das mesas já gastas, ou evitar que de vez em quando um
cliente se sentasse em uma farpa. A Hospedaria Derradeiro Lar não era
sofisticada, não como algumas das quais ela tinha ouvido falar em Haven. Ela
era confortável. A árvore viva sobre a qual ela tinha sido construída, enrolou
amorosamente seus braços idosos em torno dela, enquanto as paredes e alguns
objetos tinham sido trabalhados em volta dos galhos principais da árvore com
tanto cuidado que era impossível dizer onde terminava o trabalho da natureza e
onde começava a criação do homem. O balcão parecia recuar e fluir como uma
onda polida em volta da madeira viva que o sustentava. Os vitrais coloridos
pareciam jogar flashes de "boas vindas" de cores vibrantes em todo o salão.
As sombras diminuíam à medida que o meio dia se aproximava. A
Hospedaria Derradeiro Lar logo estaria aberta para os clientes. Tika olhou em
volta e deu um sorriso de satisfação. As mesas estavam limpas e lustradas. Tudo
que ela tinha a fazer era varrer o chão. Ela tinha começado empurrar os pesados
bancos de madeira para os lados, quando Otik apareceu vindo da cozinha,
envolto em um vapor cheiroso.
— Este vai ser mais um dia revigorante, tanto para o clima quanto para
os negócios, — ele disse, espremendo seu corpo forte atrás do balcão. Ele
começou a arrumar as canecas, assobiando alegremente.
— Gostaria que os negócios fossem um pouco mais devagar e o tempo
um pouco mais ameno —, disse Tika, agarrando um dos bancos — ontem eu
trabalhei como uma louca e ouvi poucos "obrigados" e ganhei menos ainda
gorjeta! Que turma mais desanimada! Todo mundo nervoso, agitando-se com
qualquer barulho. Ontem à noite eu derrubei uma caneca e... juro... Retark
sacou a espada!
— Não! — Otik respirou fundo — Retark é um Guarda Seguidor em
Solace. Eles estão sempre nervosos. Você também estaria se tivesse que
trabalhar para Hederick, aquele fana...
— Cuidado —, Tika aconselhou. Otik deu de ombros.
— A menos que o Alto Teocrata possa voar, ele não está nos ouvindo.
Eu ouviria suas botas subindo a escada antes que ele pudesse me ouvir. — Mas
Tika percebeu que ele abaixou a voz enquanto continuava — Os moradores de
Solace não tolerarão muito mais, escreva o que eu digo. Pessoas desaparecendo,
sendo arrastadas para ninguém sabe onde. É uma época difícil — Ele balançou
a cabeça. Depois se alegrou — Mas, isso é bom para os negócios.
— Até ele nos fechar —, Tika disse tristemente. Ela agarrou a vassoura e
começou a varrer apressadamente.
— Até mesmo os teocratas precisam encher a barriga e apagar o fogo e a
falação de suas gargantas — Otik conteve o riso — Pregar para as pessoas sobre
os Novos Deuses todos os dias é um trabalho que deve dar sede, pois ele vem
aqui toda noite.
Tika parou de varrer e se inclinou em direção ao balcão.
— Otik —, ela disse séria, sua voz diminuiu — Tem uma outra conversa
também... rumores de guerra. Exércitos se formando ao norte. E tem esses
estranhos homens de capuz na cidade, andando de um lado para o outro com o
Alto Teocrata, fazendo perguntas.
Otik olhou para a garota de dezenove anos com carinho, esticou sua mão
e deu um tapinha no rosto dela. Ele a tinha tratado como uma filha, desde que
seu pai verdadeiro desapareceu misteriosamente. Ele enrolou seus cachos
ruivos.
— Guerra? Que nada! — Ele desdenhou. — Fala-se de guerra desde a
época do Cataclismo. É só conversa fiada, garota. Talvez o Teocrata esteja
inventando essas histórias só para manter o povo na linha.
— Não sei, não —Tika franziu a testa — Eu... A porta se abriu.
Tanto Tika quanto Otik se viraram alarmados e olharam para a porta.
Eles não tinham ouvido os passos na escada, e isso era estranho! A Hospedaria
Derradeiro Lar tinha sido construída no alto dos galhos de uma poderosa
copadeira, como todas as outras construções de Solace, com exceção da oficina
do ferreiro. O povo da cidade decidiu morar nas árvores durante o terror e o
caos que se seguiu ao Cataclismo. E assim, Solace se tornou uma cidade nas
árvores, uma das poucas e verdadeiras maravilhas que sobrou em Krynn.
Calçadas suspensas de madeira conectavam as casas e o comércio empoleirados
bem acima do chão, onde quinhentas pessoas viviam suas vidas diariamente. A
Hospedaria Derradeiro Lar era o maior edifício de Solace e ficava a doze metros
do chão. As escadas circundavam o tronco antigo e cheio de nós. Como Otik
havia dito, qualquer visitante da Hospedaria seria ouvido chegando bem antes
de ser visto.
Mas, nem Tika nem Otik tinham ouvido o velho.
Ele parou na porta, apoiando-se num cajado de carvalho gasto, e correu
os olhos pela Hospedaria. Ele trazia o capuz rasgado de seu manto cinza sobre
a cabeça, e sua sombra encobria os traços de seu rosto com exceção de seus
olhos brilhantes como os de uma ave de rapina.
— Posso lhe ajudar, Senhor? —Tika perguntou ao estranho, trocando
olhares preocupados com Otik. Seria este velho um espião dos Seguidores?
— Ah? — O velho piscou — Está aberto?
— Bem... —Tika hesitou.
— Certamente —, Otik disse com um sorriso largo — Entre, Barba
Grisalha. Tika, arranje uma cadeira para nosso hóspede. Ele deve estar cansado
depois dessa longa subida.
— Subida? Coçando a cabeça, o velho passeou os olhos pelo alpendre,
depois olhou para o chão lá embaixo — Ah, sim. Subida. Muitos degraus... —
Ele entrou movendo-se com dificuldade, depois brincou apontando seu cajado
na direção de Tika — Continue seu trabalho, menina. Ainda sou capaz de pegar
minha própria cadeira.
Tika encolheu os ombros, pegou sua vassoura, e começou a varrer,
mantendo os olhos no velho.
Ele ficou de pé no centro da Hospedaria, olhando a sua volta como se
confirmando o local e a posição de cada mesa e cadeira do saguão. O saguão
principal era grande e tinha o formato de um feijão, e estava construído em
torno do tronco da copadeira. Os galhos menores da árvore sustentavam o piso
e o teto. Ele olhou com um interesse particular para a lareira que ficava a três
quartos da distância até o fundo do saguão. O único trabalho em perda existente
na Hospedaria, havia sido obviamente feito por mãos anãs, de modo a parecer
parte da árvore, serpenteando naturalmente entre os galhos acima. Um
recipiente próximo da lareira continha madeira para fogo e troncos de pinho,
trazidos do alto da montanha. Nenhum morador de Solace pensaria em
queimar a madeira de suas próprias árvores. Havia uma saída pelos fundos,
através da cozinha; era uma queda de doze metros, mas alguns dos clientes de
Otik achavam essa arquitetura muito conveniente. O velho também achou.
Ele resmungou comentários satisfeitos para ele mesmo enquanto seus
olhos iam de um lugar para outro. Até que, para surpresa de Tika, ele de repente
deixou cair seu cajado, arregaçou as mangas de seu manto, e começou a
rearranjar a mobília!
Tika parou de varrer e se apoiou em sua vassoura.
— O que você está fazendo? Essa mesa sempre ficou aí!
Havia uma mesa longa e estreita no centro do saguão principal. O velho
arrastou-a pelo chão e a empurrou contra o tronco da enorme copadeira, do
outro lado da lareira, depois deu alguns passos para trás para admirar seu
trabalho.
— Ali —, ele resmungou baixinho — Ela deve ficar mais próxima da
lareira. Agora me traz mais duas cadeiras. Precisamos de seis aqui.
Tika virou-se para Otik. Parecia que ele ia protestar, mas, naquele
momento, havia um clarão vindo da cozinha. Um grito do cozinheiro indicou
que a gordura tinha pegado fogo novamente. Otik correu na direção das portas
de vaivém da cozinha.
— Ele é inofensivo —, deixou escapar quando passou por Tika —
Deixe-o fazer o que ele quiser, dentro dos limites. Talvez ele vá dar uma festa.
Tika suspirou e levou duas cadeiras até o velho, como ele havia pedido.
Ela as colocou onde ele indicou.
— Agora —, o velho disse, olhando atentamente ao redor — Traga mais
duas cadeiras, mas que sejam confortáveis, para cá. Coloque-as próximo da
lareira, neste canto escuro.
— Este lugar não é escuro —, Tika protestou — Ele está bem exposto
ao sol!
— Ah... — os olhos do velho se apertaram —, mas vai estar escuro à
noite, não vai? Quando o fogo estiver aceso...
— A... a... acho que sim... Tika gaguejou.
— Traga as cadeiras. Isso menina. Eu quero uma bem aqui — O velho
indicou um ponto bem em frente à lareira — Para mim.
— Você vai dar uma festa, meu Velho? —Tika perguntou enquanto
carregava a cadeira mais confortável e mais gasta da Hospedaria.
— Uma festa? — A idéia deu a impressão de soar engraçada para o
velho. Ele riu — Sim, garota. Será uma festa como o mundo de Krynn nunca
viu desde antes do Cataclismo! Esteja preparada. Tika Waylan. Esteja
preparada!
Ele deu uns tapinhas no ombro de Tika, desarrumou o cabelo dela,
depois se virou e se sentou na cadeira com os ossos estalando.
— Uma caneca de cerveja —, ele pediu.
Tika foi buscar a cerveja. Foi só depois que trouxe a bebida do velho e
voltou a varrer que ela parou, tentando imaginar como ele sabia seu nome.

1
VELHOS AMIGOS SE REENCONTRAM.
UMA RUDE INTERRUPÇÃO.

Flint Forjardente desmaiou sobre uma rocha coberta de musgo. Seus
velhos ossos de anão tinham-no suportado por tempo suficiente e não estavam
dispostos a continuar sem se queixarem.
— Eu nunca deveria ter partido —, Flint resmungou, olhando para o
vale lá em baixo. Ele falou alto, embora não houvesse sinal de outro ser vivo nas
redondezas. Longos anos vagando solitário tinham levado o anão a adquirir o
hábito de falar consigo mesmo. Ele bateu as duas mãos nos joelhos — E que eu
seja amaldiçoado se partir novamente! — ele anunciou com veemência.
Aquecida pelo sol da tarde, a rocha transmitia uma sensação de conforto
para o velho anão que tinha passado o dia inteiro caminhando no frígido ar do
Outono. Flint relaxou e deixou o calor penetrar em seus ossos — o calor do sol
e o calor de seus pensamentos. Porque ele estava em casa.
Ele olhou a sua volta, seu olhar se demorando-se carinhosamente nas
paisagens familiares. O lado da montanha abaixo dele formava como que o lado
de uma concha na montanha alta e acarpetada no esplendor do Outono. As
copadeiras do vale davam a impressão de estar pegando fogo com as cores da
estação, os vermelhos brilhantes e dourados se desvanecendo na cor púrpura
dos montes Kharolis mais além. O impecável céu azul-violeta que se via entre as
árvores repetia-se nas águas do Lago de Cristal. Finas colunas de fumaça
anelavam-se no topo das árvores, o único sinal da presença de Solace. Uma
névoa suave que se expandia cobria o vale com o aroma suave de fogueiras
caseiras queimando.
Enquanto sentava e descansava, Flint pegou um bloco de madeira e uma
adaga brilhante de seu alforje, suas mãos moviam-se inconscientemente. Desde
tempos imemoriais, seu povo sempre teve a necessidade de dar a forma que eles
desejavam àquilo que não tem forma. Ele mesmo tinha sido um ferreiro
renomado antes de se aposentar, alguns anos atrás. Ele colocou sua faca na
madeira, depois suas mãos permaneceram paradas, pois a atenção de Flint havia
sido atraída pela fumaça que saia das chaminés escondidas lá em baixo.
— O fogo da minha própria casa apagou —, Flint disse suavemente. Ele
chacoalhou a si mesmo, com raiva por seu sentimentalismo e começou a cortar
a madeira com violência. Ele resmungava alto, — Minha casa ficou vazia. É
provável que o telhado tenha goteiras e que a mobília tenha sido arruinada.
Busca estúpida. Essa foi a coisa mais idiota que eu já fiz. Depois de cento e
quarenta e oito anos, eu deveria ter aprendido!
— Você nunca aprenderá, anão —, uma voz distante respondeu-lhe —
Nem que você viva duzentos e quarenta e oito anos!
A mão do anão deixou a madeira cair, depois se moveu com uma calma
segurança da adaga para o cabo do machado enquanto ele perscrutava o
caminho. A voz soou familiar, a primeira voz familiar que ele escutava em muito
tempo. Mas ele não sabia dizer de quem era.
Flint apertou os olhos contra o sol que se punha. Ele achou que tinha
visto a silhueta de um homem correndo caminho acima. De pé, Flint colocou-se
à sombra de um pinheiro alto para ver melhor. O caminhar do homem era
marcado por uma graça elegante — a graça de um elfo, Flint teria dito; mas o
corpo do homem tinha a espessura e a firmeza dos músculos de um humano, e
os pelos faciais eram definitivamente humanos. Tudo que o anão conseguia ver
da face do homem coberta por um capuz verde era uma pele bronzeada e uma
barba de tom castanho-avermelhado. O homem trazia um arco longo
pendurado em um ombro e uma espada presa no seu lado esquerdo. Ele vestia
uma roupa de pelica, cuidadosamente trabalhada com os desenhos intrincados
que os elfos adoravam. Mas nenhum elfo no mundo de Krynn poderia ter
barba... nenhum elfo, exceto...
— Tanis? — disse Flint de modo hesitante enquanto o homem se
aproximava.
— O próprio — O rosto barbado do recém chegado se abriu num
enorme sorriso. Ele manteve os braços abertos, e antes que o anão pudesse
pará-lo, agarrou Flint em um abraço que o levantou do solo. O anão apertou seu
velho amigo contra si durante um breve momento depois, lembrando-se de sua
dignidade, debateu-se e se livrou do abraço do meio elfo.
— Bem, você não aprendeu boas maneiras em cinco anos —, o anão
resmungou — Continua não respeitando minha idade e meu posto. Erguer-me
como um saco de batatas — Flint olhou estrada abaixo — Espero que ninguém
conhecido tenha nos visto.
— Eu duvido que exista muita gente que se lembre de nós —, disse
Tanis, os olhos estudando o amigo troncudo carinhosamente — O tempo não
passa para você e eu, velho anão, como ele passa para os humanos. Cinco anos
são um longo tempo para eles, um curto momento para nós — Aí ele sorriu —
Você não mudou nada.
— O mesmo não pode ser dito dos outros — Flint sentou-se na rocha e
voltou a esculpir. Ele franziu a testa para Tanis — Por que essa barba? Você já
era feio o suficiente.
Tanis coçou o queixo.
— Eu estive em terras que não eram amistosas com pessoas de sangue
élfico. A barba... um presente de meu pai humano —, ele disse com uma ironia
amarga, — ajudou muito a esconder minha origem.
Flint grunhiu. Ele sabia que aquela não era a verdade completa. Embora
odiasse matar, Tanis não era de se esconder de uma briga por atrás de uma
barba. Cavacos de madeira voavam.
— Estive em terras que não eram amistosas com qualquer um de
qualquer tipo de sangue — Flint virou a madeira em sua mão, examinando-a —
Mas nós estamos em casa agora.
Tudo isso ficou para trás.
— Não pelo que eu tenho escutado — disse Tanis, cobrindo novamente
o rosto com o capuz para evitar o sol em seus olhos — Os Altos Seguidores de
Haven indicaram um homem chamado Hederick para governar como Alto
Teocrata em Solace e ele transformou a cidade em um viveiro de fanatismos
com sua nova religião.
Tanis e o anão viraram-se e olharam para baixo, para o vale quieto. Luzes
começaram a piscar, tornando visíveis as casas nas árvores. O ar da noite estava
parado, calmo e doce, tingido com o cheiro de fumaça da madeira das lareiras,
das casas. Vez ou outra eles conseguiam ouvir o barulho lá longe de uma mãe
chamando seus filhos para o jantar.
— Não ouvi falar de nenhum problema em Solace —, Flint disse
calmamente.
— Perseguição religiosa... inquisições... — a voz de Tanis soou
ameaçadora vindo das profundezas de seu capuz. A voz mais grave, mais
sombria do que Flint se lembrava. O anão franziu a testa. Seu amigo havia
mudado nestes cinco anos. E os elfos nunca mudam! Mas, Tanis era apenas
meio elfo, um filho da violência, sua mãe havia sido estuprada por um guerreiro
humano durante uma das muitas guerras que haviam separado as diferentes
raças de Krynn durante os anos caóticos que se seguiram ao Cataclismo.
— Inquisições! De acordo com os boatos isso atinge apenas aqueles que
desafiam o novo Alto Teocrata —, Flint disparou — Eu não acredito nos
deuses dos Seguidores, nunca acreditei, mas não exponho minhas idéias pelas
ruas. Fique calado e eles te deixam sossegado, esse é meu mote. Os Altos
Seguidores de Haven ainda são homens sábios e virtuosos. É apenas essa maçã
podre em Solace que está estragando todo o cesto. A propósito, você encontrou
o que procurava?
— Algum sinal dos antigos e verdadeiros deuses? — Tanis perguntou —
Ou paz de espírito? Eu buscava os dois. A respeito de qual dos dois você quer
saber?
— Bem, eu achei que um vinha junto com o outro — Flint grunhiu. Ele
girou o pedaço de madeira em suas mãos, ainda insatisfeito com suas
proporções — Nós vamos ficar aqui a noite inteira sentindo o cheiro da
comida? Ou nós vamos para a cidade jantar?
— Vamos — Tanis acenou com um gesto. Juntos, os dois começaram o
trajeto, mas as longas pernas de Tanis forçavam o anão a dar dois passos para
cada um dele. Embora já fizesse muitos anos que eles tinham viajado juntos,
Tanis diminuiu inconscientemente seu ritmo, enquanto Flint apressou
inconscientemente o dele.
— Então, você não encontrou nada? — Flint continuou.
— Nada — Tanis respondeu — Como havíamos descoberto há muito
tempo atrás, os únicos clérigos e sacerdotes que existem neste mundo servem
falsos deuses. Eu ouvi histórias de curas, mas tudo não passava de truques e
magias. Felizmente, nosso amigo Raistlin me ensinou o que eu deveria olhar...
— Raistlin! — disse Flint ofegante — Aquele mágico branquelo e
magricela. Ele próprio é mais do que meio charlatão. Sempre reclamando e
resmungando e metendo o nariz onde não é chamado. Se não fosse pelo
cuidado que o irmão gêmeo tem com ele, alguém já teria dado um fim às suas
mágicas há muito tempo.
Tanis estava feliz pelo fato da barba esconder seu sorriso.
— Acho que aquele jovem era um mágico melhor do que você quer
admitir —, ele disse — E, você tem de convir que ele trabalhou duro e sem
descanso para ajudar aqueles que foram enganados pelos falsos clérigos, como
eu — Ele suspirou.
— Pelo que você sem dúvida recebeu poucos agradecimentos — o anão
disse.
— Muito pouco —, disse Tanis — As pessoas querem acreditar em
alguma coisa, mesmo que lá no fundo elas saibam que não é verdade. Mas e
você? Como foi sua viagem para sua terra natal?
Flint continuou caminhando com passos pesados sem responder, a cara
fechada. Por fim ele disse.
— Eu nunca deveria ter ido —, e levantou os olhos para Tanis, seus
olhos, quase impossíveis de se ver através das sobrancelhas brancas e espessas,
informando o meio elfo que esta parte da conversa não era bem vinda. Tanis
percebeu o olhar de Flint, mas fez suas perguntas do mesmo modo.
— O que aconteceu com os clérigos anões? As histórias que nós
ouvimos?
— Não eram verdadeiras. Os clérigos desapareceram trezentos anos
atrás durante o Cataclismo. Assim dizem os anciões.
— Igual aos elfos —, Tanis ponderou.
— Eu vi...
— Psiu! — Tanis levantou uma das mãos como advertência. Flint ficou
imóvel.
— O que foi? — ele murmurou. Tanis apontou.
— Lá naquele arvoredo.
Flint olhou para além das árvores, ao mesmo tempo em que sua mão
procurava o machado de batalha que estava amarrado a suas costas.
Os raios vermelhos do sol poente refletiram por um segundo em um
pedaço de metal que brilhava por entre as árvores. Tanis viu-o uma vez e o
perdeu, depois viu de novo. Naquele momento, porém, o sol desceu, deixando
no céu um brilho violeta e fazendo com que as sombras da noite se arrastassem
sobre as árvores da floresta.
Flint apertou os olhos e olhou para dentro da escuridão.
— Não vejo nada.
— Eu vi —, disse Tanis. E continuou fitando o mesmo lugar onde tinha
visto o metal, e gradualmente sua visão de elfo começou a detectar a morna aura
vermelha emanada por todos os seres vivos, mas visível apenas para os elfos.
— Quem está aí? — Tanis perguntou.
Durante um bom tempo, a única resposta foi um som estranho que fez
com que os pelos do pescoço do meio elfo se arrepiar. Era um som oco, uma
espécie de zunido que começou baixo, foi aumentando até se transformar num
tom agudo, como um gemido gritado. Acompanhando o grito havia uma voz.
— Elfo andarilho, volte de onde você veio e deixe o anão para trás. Nós
somos os espíritos daquelas pobres almas que Flint Forjardente deixou no chão
do bar. Nós morremos em combate?
A voz do espírito aumentou ainda mais, assim como o gemido oco que a
acompanhava.
— Não! Nós morremos de vergonha, amaldiçoados pelo fantasma da
uva por não sermos capazes de beber mais do que um anão da montanha.
A barba de Flint tremia de ódio, e Tanis, que tinha começado a gargalhar,
foi forçado a agarrar o furioso anão pelos ombros para evitar que ele disparasse
de cabeça dentro da mata.
— Malditos sejam os olhos dos elfos! — A voz fantasmagórica ficou
alegre.
— E malditas sejam as barbas dos anões!
— Você não desconfiou? — Flint murmurou. — Tasslehoff Pés
Ligeiros!
Houve um ligeiro farfalhar nos arbustos mais baixos, então, uma figura
pequena se pôs em pé no caminho. Era um kender, um membro de uma raça
considerada por muitas pessoas em Krynn como um incômodo igual aos
mosquitos. De ossatura pequena, os kenders raramente crescem mais que um
metro e vinte. Este kender em particular era quase da altura de Flint, mas sua
estrutura franzina e seu perpétuo rosto de criança faziam com que ele parecesse
menor. Ele vestia um leggings azul brilhante que contrastava fortemente com
seu colete de pelo de animal e sua túnica simples feita em casa. Seus olhos
castanhos brilhavam cheios de malícia e alegria; seu sorriso parecia chegar ao
topo de suas orelhas pontudas. Ele baixou a cabeça numa mesura de gozação o
que fez com que uma longa mecha de seu cabelo castanho, que era seu orgulho
e alegria, caísse por cima de seu nariz. Depois, ele se endireitou, rindo. O brilho
metálico que os olhos de Tanis tinham visto, vinha das fivelas de um dos
numerosos sacos presos à volta de seus ombros e da sua cintura.
Tas sorriu para eles, apoiando-se em seu cajado hoopak. Era este cajado
quem havia criado aquele som fantasmagórico. Tanis deveria tê-lo reconhecido
de imediato, pois já havia visto o kender assustar muitos de seus atacantes só
com o rodopiar de seu cajado no ar, produzindo aquele gemido. Uma invenção
dos kenders, a parte de baixo do cajado hoopak era pontiaguda e coberta de
cobre; o topo tinha uma espécie de forquilha com uma tira de couro. O cajado
era feito com um pedaço de madeira de salgueiro flexível. Apesar de ser
menosprezado por toda e qualquer raça de Krynn, o hoopak era mais do que
uma ferramenta ou uma arma útil para os kenders, era também, seu símbolo.
"Novas estradas pedem por um hoopak," era um ditado popular entre o povo
kender. Era sempre imediatamente seguido por mais um de seus ditados:
"Nenhuma estrada é velha demais."
Tasslehoff de repente correu para a frente, com os braços abertos.
— Flint! — O kender jogou seus braços em volta do anão e o abraçou.
Flint, envergonhado, respondeu ao abraço de forma relutante, depois
rapidamente deu um passo atrás. Tasslehoff riu, depois levantou os olhos para o
meio elfo.
— Quem é este? — Ele disse. — Tanis! Eu não te reconheci de barba! —
Ele estendeu os braços curtos.
— Não, obrigado —, disse Tanis, rindo. Ele acenou mantendo o kender
a distancia — Eu prefiro que minha escarcela continue no lugar onde está.
Com um repentino olhar de espanto, Flint procurou sob sua túnica.
— Seu safado! Ele rugiu e pulou sobre o kender, que ria. Os dois rolaram
na poeira.
Tanis, segurando o riso, começou a puxar Flint de cima do kender. Aí ele
parou e se virou alarmado. Tarde demais, ele ouviu o chacoalhar da prata das
rédeas e do cabresto e o bufar de um cavalo. O meio elfo levou a mão ao punho
de sua espada, mas ele já havia perdido toda e qualquer vantagem que poderia
ter se estivesse alerta.
Praguejando, Tanis não podia fazer nada senão ficar parado e olhar para
a figura que emergia das sombras. Ela estava sentada num pequeno pônei de
pelos longos na perna que se movia com a cabeça baixa, como se tivesse
vergonha de seu cavaleiro. O rosto do cavaleiro tinha manchas cinza e sua pele
flácida pendia, criando dobras. Dois olhos cor-de-rosa olhavam para eles
debaixo de um capacete de aparência militar. Seu corpo, gordo e pelancudo,
vazava por entre os pedaços de uma armadura barata e pretensiosa.
Um odor peculiar atingiu Tanis e ele franziu o nariz com nojo.
"Hobgoblin" seu cérebro registrou. Ele largou a espada e chutou Flint, mas
naquele momento, o anão deu um tremendo espirro e caiu sentado sobre o
kender.
— Cavalo! disse Flint, espirrando novamente.
— Atrás de você —, Tanis respondeu baixinho.
Flint, ouvindo o tom de alerta na voz de seu amigo, levantou-se
desajeitadamente. Tasslehoff rapidamente fez o mesmo.
O hobgoblin estava sentado no pônei com uma perna de cada lado,
observando-os com um olhar desdenhoso levantando os lábios de sua cara
chata. Seus olhos rosa refletiam os últimos raios de sol.
— Vocês estão vendo, rapazes —, disse o hobgoblin, falando a Língua
Comum com um forte sotaque, — com que tipo de idiotas estamos lidando
aqui em Solace.
Ouviu-se um riso vindo de trás das árvores que havia atrás do hobgoblin.
Cinco guardas goblins, vestindo uniformes mal feitos, saíram caminhando. Eles
se posicionaram dos dois lados do cavalo de seu líder.
— Agora... — O hobgoblin se inclinou em sua cela. Tanis assistia com
uma espécie de fascinação horrível quando a enorme barriga da criatura engoliu
o bico da sela — Eu sou Cotilique Toede, líder das forças que mantém Solace
protegida de elementos indesejáveis. Vocês não têm direito de estar andando
nos limites da cidade depois do por do sol. Vocês estão presos. — Cotiliquê
Toede inclinou-se para falar com um goblin que se encontrava perto dele.
— Traga-me o cajado de cristal azul, se você o encontrar com eles —, ele
disse na sua estranha língua. Tanis, Flint e Tasslehoff, trocaram olhares entre si
se questionando. Todos eles sabiam falar alguma coisa na língua dos goblins,
Tas melhor que os outros. Será que eles tinham ouvido direito? Um cajado de
cristal azul?
— Se eles resistirem —, acrescentou Cotiliquê Toede, voltando a falar a
Língua Comum para causar mais efeito, — mate-os.
Depois disso, ele puxou as rédeas, girou sua montaria num único gesto e
galopou caminho abaixo em direção a cidade.
— Goblins! Em Solace! Este novo Teocrata tem muita coisa para
explicar! — Disse Flint. Levantando sua mão, ele puxou o machado de batalha
de suas costas e plantou seus pés firmemente no chão, balançando para frente e
para trás até se sentir equilibrado — Muito bem —, ele anunciou — Vamos lá.
— Eu lhes aviso para recuarem —, Tanis disse, jogando o manto sobre
um dos ombros e sacando a espada — Nós fizemos uma longa jornada.
Estamos cansados, famintos e atrasados para uma reunião com amigos que não
vemos há muito tempo. Não temos nenhuma intenção de sermos presos.
— Ou sermos mortos —, acrescentou Tasslehoff. Ele não tinha sacado
nenhuma arma mas continuava observando os goblins com interesse.
Um pouco surpresos, os goblins trocaram olhares nervosos entre si. Um
deles olhou sinistramente para a estrada onde seu líder tinha desaparecido. Os
goblins estavam acostumados a incomodar fazendeiros e vendedores
ambulantes que viajavam para a pequena cidade, não a desafiar lutadores
armados e obviamente treinados. Mas seu ódio contra as outras raças de Krynn
vinha de longa data. Eles sacaram suas espadas longas e curvas.
Flint deu um passo à frente, suas mãos agarrando firmemente o cabo do
machado.
— Só existe uma criatura que eu odeio mais do que um anão —, ele
declarou, — e essa criatura é um goblin!
O goblin mergulhou contra Flint, esperando derrubá-lo. Flint girou seu
machado com uma precisão mortal. A cabeça de um dos goblins rolou na poeira
e o corpo dele se estatelou no chão.
— O que vocês gosmentos estão fazendo em Solace? Tanis perguntou,
aparando habilmente a estocada desajeitada de um outro goblin. Suas espadas se
cruzaram e pararam por um momento, então, Tanis empurrou o duende para
trás. — Vocês trabalham para o Alto Teocrata?
— Teocrata? — O goblin engasgou com a gargalhada que deu.
Brandindo a espada como um louco, ele correu para cima de Tanis. — Aquele
idiota? Nosso Cotiliquê trabalha para o... uh! — A criatura impalou a si mesma
na espada de Tanis. Ela grunhiu, depois foi escorregando devagarinho até cair
no chão.
— Droga! Tanis praguejou e olhou frustrado para o goblin morto —
Idiota atrapalhado! Eu não queria matá-lo, só queria descobrir quem o
contratou.
— Você descobrirá quem nos contratou, mais cedo do que gostaria! —
resmungou outro goblin, correndo na direção do meio elfo distraído.Tanis
virou-se rapidamente e desarmou a criatura. Depois deu-lhe um chute no
estômago e o goblin se curvou.
Um outro goblin correu para cima de Flint antes que o anão tivesse
tempo de se recuperar de seu golpe letal. Ele cambaleou para trás, tentando
recuperar o equilíbrio.
Aí, a voz fina de Tasslehoff se fez ouvir.
— Esta escória luta para qualquer um, Tanis. Dê-lhes carne de cachorro
de vez em quando e eles serão seus para semp...
— Carne de cachorro! — O goblin grasnou e se afastou de Flint
enraivecido. — Que tal carne de kender, seu "vozinha fina"? — O goblin correu
na direção do aparentemente desarmado kender agitando os braços, tentando
alcançar seu pescoço com suas mãos vermelho púrpura. Tas, sempre com
aquela expressão inocente de criança, enfiou a mão no colete de lã de carneiro,
de onde puxou uma adaga e a arremessou, num único gesto. O goblin colocou
as mãos no peito e caiu com um gemido. Sobrou apenas o som de pés batendo
quando o último duende fugiu correndo. A batalha havia terminado.
Tanis guardou sua espada, fazendo caretas de nojo diante os corpos
fedorentos; o cheiro lembrava peixe podre. Flint limpou o sangue negro de
goblin da lâmina de seu machado. Tas fitava com tristeza o corpo do goblin que
ele havia matado. Ele tinha caído de bruços, com a adaga escondida debaixo
dele.
— Eu a pego para você —, Tanis se ofereceu, preparando-se para rolar o
corpo.
— Não —, Tas fez uma careta — Eu não a quero mais. Sabe, você nunca
consegue se livrar do cheiro.
Tanis concordou com um aceno da cabeça. Flint prendeu novamente seu
machado e os três continuaram a percorrer o caminho.
As luzes de Solace ficavam mais claras à medida que a escuridão
aumentava. O cheiro da fumaça de madeira no ar frio da noite trouxe
pensamentos de comida, calor e segurança. Os companheiros apertaram o
passo. Eles não falaram nada durante um bom tempo, todos eles ouvindo o eco
das palavras de Flint em suas mentes: Goblins. Em Solace.
Por fim, a despeito disso, o irrefreável kender gargalhou.
— Além do mais —, ele disse, — a adaga era do Flint!

2
O RETORNO À HOSPEDARIA
UM CHOQUE
O JURAMENTO É QUEBRADO

Quase todo mundo, nessa época, que estava em Solace dava um jeito de
passar na Hospedaria Derradeiro Lar em alguma hora da noite. As pessoas se
sentiam mais seguras em grupos.
Solace tinha sido durante muito tempo uma encruzilhada para viajantes.
Eles vinham de Haven, a capital de Éden. Eles vinham do reino élfico de
Qualinesti ao sul. Algumas vezes eles vinham do leste, do outro lado das
planícies áridas da Abanasinia. A Hospedaria Derradeiro Lar era conhecida em
todo o mundo civilizado como um refúgio dos viajantes e um lugar para saber
as novidades. Foi para a Hospedaria que os três amigos se dirigiram.
O enorme tronco retorcido erguia-se no meio das árvores a sua volta. Os
vitrais coloridos da Hospedaria luziam brilhantemente contra a sombra da
copadeira, e sons de vida escapavam pelas janelas. Lanternas penduradas nos
galhos iluminavam a escada sinuosa. Embora a noite do Outono estivesse
esfriando no meio das copadeiras de Solace, os viajantes sentiam o
companheirismo e as memórias acalentarem suas almas e levarem para longe as
dores e as tristezas da estrada.
A Hospedaria estava tão lotada nesta noite que os três eram forçados o
tempo todo a se encostar ao lado da escada para deixar homens, mulheres, e
crianças passarem por eles. Tanis notou que as pessoas olhavam para ele e seus
companheiros com desconfiança — não com o olhar de boas vindas que eles
teriam dado cinco anos atrás.
Tanis fechou a cara. Esta não era a volta para casa com que ele havia
sonhado. Ele nunca tinha sentido tanta tensão nos cinqüenta anos que havia
morado em Solace. Os boatos que ele tinha escutado sobre a corrupção maligna
dos Seguidores deviam ser verdadeiros.
Cinco anos atrás, uns homens que chamavam a si mesmos de
"Seguidores" ("nós seguimos os novos deuses") formaram uma organização de
clérigos que praticavam sua nova religião nas cidades de Haven, Solace, e
Berma. Tanis acreditava que estes clérigos tinham se desencaminhado, mas pelo
menos eles haviam sido honestos e sinceros. Nos anos que se seguiram,
entretanto, os clérigos foram ganhando cada vez mais status à medida que sua
religião florescia. Em pouco tempo, eles passaram a se preocupar menos com a
glória no pós vida e mais com poder em Krynn. Eles tomaram conta do
governo das cidades com a bênção do povo.
Um toque no braço de Tanis interrompeu seus pensamentos. Ele se
virou e viu Flint apontando para baixo silenciosamente. Ao olhar para baixo,
Tanis viu guardas marchando, sempre em grupos de quatro. Armados até os
dentes, eles caminhavam com um ar de imponência.
— Pelo menos eles são humanos e não goblins —, Tas disse.
— Aquele goblin torceu o nariz quando eu mencionei o Alto Teocrata
—, Tanis ponderou. Como se eles estivessem trabalhando para outra pessoa.
Eu fico imaginando o que será que está acontecendo.
— Talvez nossos amigos saibam —, Flint disse.
— Se eles estiverem aqui —, Tasslehoff completou — Muita coisa pode
ter acontecido em cinco anos.
— Eles estarão aqui, se estiverem vivos —, Flint falou num tom mais
baixo. — Foi um juramento sagrado que nós fizemos, nos encontrarmos
novamente depois que cinco anos tivessem se passado para contar o que
tivéssemos descoberto sobre o mal que estava se espalhando pelo mundo. E
pensar que nós viríamos para casa e encontraríamos o mal na soleira de nossa
porta!
— Psiu! Quieto! Vários transeuntes olharam tão alarmados pelas palavras
do anão que Tanis balançou a cabeça.
— Melhor não falar sobre isso aqui —, aconselhou o meio elfo.
Ao chegar ao topo da escada, Tas abriu completamente a porta. Uma
onda de luz, ruído, calor e o cheiro familiar das batatas apimentadas de Otik
atingiu-os em cheio. Ela os envolveu e os cobriu de forma tranqüilizadora. Otik,
que estava de pé atrás do balcão, como eles sempre se lembravam dele, não
tinha mudado, exceto talvez pelo fato de ter ficado mais corpulento. A
Hospedaria parecia não ter mudado também, a não ser para ficar mais
confortável.
Tasslehoff, examinando a multidão com seus olhos rápidos de kender,
deu um grito e apontou para o outro lado do salão. Alguma coisa mais não tinha
mudado também, a luz do fogo reluzindo no elmo de um dragão alado,
brilhante de tão polido.
— Quem é? perguntou Flint forçando a vista para enxergar.
— Caramon —, Tanis respondeu.
— Então Raistlin também estará aqui —, Flint disse com um certo
desinteresse na voz.
Tasslehoff já estava se enfiando no meio daquele monte de gente, seu
corpo pequeno e flexível quase desapercebido pelas pessoas por quem ele já
tinha passado. Tanis torcia fervorosamente para que o kender não estivesse
"adquirindo" nenhum objeto dos clientes da hospedaria. Não que ele roubasse
coisas, Tasslehoff teria ficado profundamente magoado se alguém o acusasse de
roubo. Mas o kender sentia uma curiosidade insaciável, e vários objetos
interessantes que pertenciam a outras pessoas descobriam um jeito de ir parar
na mão de Tas. A última coisa que Tanis queria esta noite era confusão. Ele fez
uma anotação mental para ter uma palavra em particular com o kender.
O meio elfo e o anão tiveram mais dificuldade para atravessar a multidão
que seu pequeno amigo. Quase todas as cadeiras haviam sido ocupadas, todas as
mesas estavam cheias. Aqueles que não tinham conseguido achar um lugar para
se sentar ficavam em pé, falando em voz baixa. As pessoas olhavam para Tanis
e Flint de forma estranha, com desconfiança, ou curiosidade. Ninguém
cumprimentou Flint, embora houvesse várias pessoas que tinham sido
fregueses do trabalho do anão como ferreiro durante muito tempo. As pessoas
de Solace tinham seus próprios problemas, e era aparente que Tanis e Flint eram
agora considerados forasteiros.
Ouviu-se um rugido do outro lado do salão, vindo da mesa onde o elmo
de dragão refletia a luz da lareira. O rosto fechado de Tanis se transformou em
um sorriso quando ele viu o gigante Caramon levantar o pequeno Tas do chão
num abraço de urso.
Flint, movendo-se com dificuldade através de um mar de fivelas de
cintos, poderia apenas imaginar a visão quando ele ouviu a voz retumbante de
Caramon respondendo à saudação de Tasslehoff.
— É melhor Caramon cuidar de sua bolsa —, Flint resmungou — Ou
contar seus dentes.
O anão e o meio elfo conseguiram finalmente atravessar a multidão que
se encontrava na frente do balcão do bar. A mesa na qual Caramon se sentara
estava encostada contra o tronco da árvore. Na verdade, ela estava colocada
numa posição estranha. Tanis pôs-se a pensar porque Otik a teria mudado de
lugar quando tudo mais tinha permanecido exatamente no mesmo lugar. Mas o
pensamento foi expulso de sua mente, pois havia chegado sua vez de receber a
saudação calorosa do grande guerreiro. Tanis removeu apressadamente o arco
longo e a aljava com flechas de suas costas antes que Caramon os abraçasse
todos e os transformasse em gravetos.
— Meu amigo! — Os olhos de Caramon estavam úmidos. Parecia que
ele queria dizer mais alguma coisa, mas estava tomado pela emoção. Tanis
também não conseguiu falar nada durante alguns momentos, mas porque ele
teve o ar espremido para fora de seus pulmões pelos braços musculosos de
Caramon.
— Onde está Raistlin? — ele perguntou quando conseguiu falar. Os
gêmeos nunca estavam longe um do outro.
— Ali. Caramon mostrou com um aceno a outra extremidade da mesa.
Depois franziu a testa — Ele está mudado —, o guerreiro avisou Tanis.
O meio elfo olhou para um canto formado por uma irregularidade na
árvore. O canto estava encoberto por uma sombra e durante um momento ele
não conseguiu ver nada além do brilho da luz do fogo. Depois, ele viu uma
figura pequena sentada; encolhida dentro de um manto vermelho mesmo com o
calor do fogo ao lado. A silhueta tinha um capuz que lhe cobria o rosto.
Tanis sentiu uma repentina relutância em falar com o jovem mago
sozinho, mas Tasslehoff tinha se levantado para procurar a garçonete e Flint
estava sendo levantado do chão por Caramon. Tanis moveu-se em direção ao
fim da mesa.
— Raistlin? — ele disse, sentindo uma estranha sensação de apreensão.
A silhueta envolvida pelo manto levantou os olhos.
— Tanis? — o homem sussurrou enquanto tirava vagarosamente o
capuz da cabeça.
O meio elfo engoliu o ar e deu um passo para trás. Ele olhou
horrorizado.
O rosto que olhou para ele de dentro das sombras, era um rosto saído de
um pesadelo. Mudado, Caramon tinha dito! Tanis tremia. "Mudado" não era a
palavra! A pele branca do mago tinha ganhado um tom dourado. Ela brilhava na
luz do fogo com uma aparência levemente metálica, como fosse uma máscara
horrenda.
A carne do rosto tinha derretido, deixando os ossos da face delineados
em sombras assustadoras. Os lábios estavam esticados transformados em uma
linha reta escura. Mas eram os olhos que prendiam Tanis. Pois eles não eram
mais os olhos de qualquer ser humano vivo que Tanis já tivesse visto. As pupilas
negras tinham agora o formato de uma ampulheta! As íris, que Tanis lembrava
serem azuis claras, tinham agora um brilho dourado!
— Eu vejo que minha aparência te choca —, Raistlin murmurou. Havia
uma leve sugestão de sorriso em seus lábios finos.
Sentado de frente para o jovem, Tanis engoliu em seco.
— Em nome dos verdadeiros deuses, Raistlin...
Flint desabou num assento perto de Tanis.
— Hoje eu fui levantado no ar mais vezes do que Reorx! — Os olhos de
Flint se arregalaram — Que demônio tomou conta de si? Você foi
amaldiçoado? — Disse o anão num arquejo, olhando para Raistlin.
Caramon sentou-se ao lado de seu irmão. Ele pegou sua caneca de
cerveja e olhou para Raistlin.
— Você vai contar para eles, Raist? — Ele perguntou em voz baixa.
— Sim —, disse Raistlin, fazendo as palavras saírem num chiado que fez
Tanis estremecer. O jovem falou num tom baixo e sibilante, um pouco mais alto
que um sussurro, como se aquilo fosse o máximo que ele podia fazer para a voz
sair de seu corpo. Suas mãos longas e nervosas, que tinham a mesma cor
dourada de seu rosto, brincavam distraidamente com o resto de comida que
havia no prato à sua frente.
— Vocês se lembram quando nós partimos cinco anos atrás? — Raistlin
começou — Meu irmão e eu tínhamos planejado uma viagem tão secreta que eu
não podia nem contar para vocês onde nós estávamos indo, meus caros amigos.
— Havia um leve toque de sarcasmo na voz gentil. Tanis mordeu os lábios para
não falar nada. Raistlin não tinha tido nunca, em sua vida inteira, nenhum "caro
amigo."
— Eu tinha sido escolhido por Par-Salian, o líder da minha ordem, para
fazer o Teste —, Raistlin continuou.
— O Teste? Tanis repetiu surpreso — Mas você era muito jovem. Tinha
o que? ...vinte anos? O Teste é dado apenas para os magos que já estudaram
muitos anos...
— Você pode imaginar meu orgulho —, Raistlin disse friamente, irritado
pela interrupção — Meu irmão e eu viajamos para o lugar secreto, as lendárias
Torres da Alta Magia. E lá, eu passei no Teste — A voz do mago quase sumiu
— E lá, eu quase morri!
A garganta de Caramon se apertou, obviamente tomado por alguma
emoção forte.
— Foi terrível —, o homenzarrão começou, a voz trêmula — Eu o
encontrei morrendo naquele lugar horrível, o sangue escorrendo de sua boca!
Eu o levantei e...
— Chega meu irmão! — A voz suave de Raistlin estalou como um
chicote. Caramon se encolheu. Tanis viu os olhos dourados do jovem mago se
apertarem, suas mãos finas se juntarem. Caramon ficou calado e engoliu sua
cerveja, olhando nervosamente para o irmão. Havia claramente um novo
problema, uma tensão entre os gêmeos.
Raistlin respirou fundo e continuou.
— Quando acordei —, o mago disse, — a minha pele tinha se tornado
desta cor, uma marca do meu sofrimento. Meu corpo e minha saúde estão
irrecuperavelmente destruídos. E meus olhos! Eu vejo através de pupilas em
forma de ampulheta e, portanto, eu vejo o tempo... como ele afeta todas as
coisas. Mesmo agora, enquanto olho para você, Tanis —, o mago sussurrou, —
Eu vejo você morrendo aos poucos. E assim eu vejo tudo aquilo que está vivo.
A mão fina de Raistlin, segurou o braço de Tanis. O meio elfo
estremeceu ao sentir o toque frio e começou a puxar o braço, mas os olhos
dourados e a mão o mantiveram parado.
O mago se inclinou para frente, seus olhos brilhavam fervorosamente.
— Mas eu tenho poder agora! ele sussurrou — Par-Salian me disse que
chegaria o dia em que minha força moldaria o mundo! Eu tenho poder e —, ele
gesticulou, — o Cajado de Magius.
Tanis viu um cajado apoiado contra o tronco da árvore a uma pequena
distância da mão de Raistlin. Era um cajado simples de madeira. Uma bola de
cristal transparente, presa em uma garra dourada, talhada de modo a parecer a
garra de um dragão, brilhava na ponta.
— E valeu a pena? —Tanis perguntou baixinho.
Raistlin fixou seus olhos nele, depois seus lábios se abriram numa
caricatura de um sorriso. Ele tirou sua mão do braço de Tanis e colocou os
braços dentro das mangas de seu manto.
— É claro! — O mago sibilou — Poder, é o que eu vinha buscando há
muito tempo... e ainda busco. — Ele reclinou o corpo para trás e sua pequena
silhueta se misturou no escuro da sombra até tudo que Tanis era capaz de ver
serem seus olhos dourados, reluzindo à luz do fogo.
— Cerveja —, disse Flint, limpando a garganta e lambendo os lábios
como se ele fosse tirar um gosto ruim da boca — Onde está o kender? Eu acho
que ele roubou a garçonete...
— Aqui estamos nós —, gritou a voz alegre de Tas. Uma ruiva, alta e
jovem, apareceu de trás dele, carregando uma bandeja com canecas.
Caramon sorriu.
— Agora, Tanis —, ele disse, — adivinhe quem ela é. Você também
Flint. Se vocês acertarem, eu pago esta rodada.
Feliz por poder tirar seu pensamento da história sinistra de Raistlin,
Tanis olhou para a garota sorridente. Cabelos vermelhos encaracolados à volta
do rosto, os olhos verdes dela dançavam divertidos, havia algumas sardas
levemente espalhadas por seu nariz e bochechas.Tanis parecia se lembrar dos
olhos, mas fora isso ele estava completamente perdido.
— Eu desisto —, ele disse — Mas também, para os elfos, os humanos
parecem mudar tão rapidamente que a gente se perde. Eu tenho cento e dois
anos, e para você, não pareço ter mais de trinta. E para mim, esses cem anos
parecem trinta. Esta jovem devia ser uma garota quando nós partimos.
— Eu tinha catorze — A garota riu e colocou a bandeja na mesa — E Caramon costumava dizer que eu era tão feia que meu pai teria que pagar para
alguém se casar comigo.
— Tika! — Flint bateu o punho na mesa — Você paga, seu grande idiota!
Ele apontou para Caramon.
— Não é justo! — O gigante riu — Ela te deu uma dica.
— Bem, os anos provaram que ele estava errado —, Tanis disse, sorrindo
— Eu viajei por muitos lugares e você é uma das garotas mais bonitas que eu vi
em Krynn.
Tika enrubesceu de alegria. Depois, sua face ficou séria.
— A propósito, Tanis —, ela enfiou a mão em seu bolso e tirou de
dentro dele um objeto cilíndrico, — isto chegou para você hoje. Em
circunstâncias estranhas.
Tanis franziu a testa e pegou o objeto. Era uma pequena caixa para
pergaminho feita de uma madeira negra altamente polida. Ele removeu
vagarosamente um pequeno pedaço de pergaminho e o desenrolou. Seu
coração batia, dolorosamente quando ele reconheceu a caligrafia negra e grossa.
— É de Kitiara —, ele disse finalmente, sabendo que sua voz havia soado
tensa e não natural. — Ela não vem.
Houve um momento de silêncio.
— Acabou-se —, disse Flint — O círculo foi rompido, o juramento
quebrado. Isso é má sorte — Ele balançou a cabeça — Má sorte.
3
CAVALEIRO DE SOLAMNIA.
A FESTA DO VELHO.

Raistlin inclinou-se para frente. Ele e Caramon olharam um para o outro
enquanto pensamentos sem palavras eram trocados entre eles.
Foi um momento raro, pois somente grandes perigos ou dificuldades
pessoais tornavam aparente o parentesco destes gêmeos. Kitiara era sua
meia-irmã mais velha.
— Kitiara não quebraria seu juramento a menos que outro juramento
mais forte a impedisse — Raistlin pensou alto.
— O que ela diz? — Caramon perguntou.
Tanis hesitou, depois passou a língua nos lábios secos.
— Suas obrigações com seu novo senhor a mantêm ocupada. Ela pede
desculpas e manda seus melhores votos para todos nós e seu amor — Tanis
sentiu a garganta se contrair. Ele tossiu. — O amor dela para seus irmãos e
para... — Ele fez uma pausa, depois enrolou o pergaminho — Só isso.
— Amor para quem? — Tasslehoff perguntou inocentemente — Ai! —
Ele olhou para Flint que tinha pisado no pé dele. O kender viu Tanis ficar
vermelho. — Oh! —, ele disse, sentindo-se estúpido.
— Vocês sabem o que ela quer dizer? — Tanis perguntou para os irmãos
— De que novo senhor ela está falando?
— Quem é que sabe da Kitiara? — Raistlin encolheu seus ombros
estreitos — A última vez que a vimos foi aqui na Hospedaria cinco anos atrás.
Ela estava indo para o norte com Sturm. Não ouvimos mais falar dela desde
então. Com relação ao novo senhor, eu diria que agora nós sabemos por que ela
quebrou seu juramento conosco: ela jurou aliança a um outro. Ela é, afinal de
contas, uma mercenária.
— Sim —, Tanis admitiu. Ele colocou o pergaminho de volta em sua
caixa e olhou para Tika — Você disse que isto chegou em circunstancias
estranhas? Me conte.
— Um homem o trouxe no fim da manhã. Pelo menos, eu acho que era
um homem. Tika tremia — Ele estava enrolado dos pés a cabeça em roupas de
todos os tipos. Eu não conseguia nem ver o rosto dele. Sua voz era sibilante, e
ele falou com um sotaque estranho. "Entregue isto a um tal Tanis Meio Elfo,"
ele disse. Eu lhe disse que você não estava aqui e não havia estado aqui há vários
anos. "Ele vai estar", o homem disse. Depois ele partiu — Tika encolheu os
ombros. — É tudo que eu posso lhe dizer. Aquele velho ali o viu — Ela fez um
gesto indicando o velho que estava sentado na cadeira em frente ao fogo —
Você poderia perguntar-lhe se ele notou algo mais.
Tanis se virou para olhar para o velho que estava contando histórias a
uma criança de olhos sonolentos que olhava fixamente para as chamas. Flint
tocou o braço de Tanis.
— Eis alguém que pode lhe dizer mais, o anão disse.
— Sturm! — Tanis disse calorosamente, virando-se para a porta.
Todos, com exceção de Raistlin, se viraram. O mago recolheu-se uma
vez mais para as sombras.
Em pé na porta, havia uma silhueta ereta de costas, vestindo uma
armadura completa e cota de malha, o símbolo da Ordem da Rosa no peitoral
de aço. Muitas pessoas na Hospedaria se viraram para olhar, franzindo as testas.
O homem era um Cavaleiro Solâmnico, e os Cavaleiros de Solamnia tinham
adquirido uma má reputação no norte. Boatos da corrupção deles tinham
chegado até mesmo aqui ao sul. Os poucos que reconheceram Sturm como um
antigo morador de Solace, deram de ombros e voltaram para suas bebidas.
Aqueles que não o reconheceram continuaram a observar. Nestes dias de paz,
era incomum ver um cavaleiro vestindo uma armadura completa entrar na
hospedaria. Mas era ainda mais incomum ver um cavaleiro vestindo uma
armadura completa que datava, praticamente, da época do Cataclismo!
Sturm recebeu os olhares como saudações por seu posto. Ele alisou
cuidadosamente seu grande e espesso bigode, que por ser um símbolo dos
Cavaleiros dos velhos tempos, era tão obsoleto quanto sua armadura. Ele
mantinha os acessórios dos Cavaleiros Solâmnicos com um orgulho
inquestionável e tinha o braço e a habilidade necessários para defender esse
orgulho. Embora as pessoas na Hospedaria não tirassem os olhos dele,
ninguém, depois de dar uma olhada nos olhos frios e calmos do cavaleiro,
ousou debochar ou fazer um comentário de menosprezo.
O cavaleiro manteve a porta aberta para um homem alto e uma mulher
coberta de peles de animais. A mulher deve ter dito uma palavra de
agradecimento a Sturm, pois ele se curvou diante dela de uma maneira cortês,
um velho costume totalmente fora de moda no mundo moderno.
— Olha isso —,-Caramon balançou a cabeça admirado — O galante
cavaleiro ajuda a dama. Onde será que ele arranjou aqueles dois?
— Eles são bárbaros das planícies —, disse Tas, de pé em uma cadeira,
acenando com a mão para seu amigo — Esse é o tipo de roupa que a tribo
Que-shu usa.
Aparentemente os dois da planície recusaram alguma oferta que Sturm
lhes fez, pois, o cavaleiro se curvou novamente e os deixou. Ele cruzou a
Hospedaria lotada com um ar nobre e orgulhoso, igual ao que ele deve ter usado
quando caminhou na direção do rei quando foi sagrado cavaleiro.
Tanis se levantou. Sturm veio até ele primeiro e abraçou o amigo. Tanis
deu-lhe um abraço apertado, sentindo os braços fortes e musculosos o
agarrarem com afeição. Depois, os dois se afastaram para olhar um para o outro
por mais um momento.
Sturm não tinha mudado nada, Tanis pensou, a não ser pelo fato de
haver mais linhas em volta de seus olhos tristes; e seu cabelo castanho estar mais
grisalho. A capa está um pouco mais gasta. Tem mais marcas na antiga
armadura. Mas o esvoaçante bigode do cavaleiro que era seu orgulho e alegria
estava longo como sempre, seu escudo estava polido como antes, seus olhos
castanhos estavam tão suaves quanto quando ele viu seus amigos.
— E você tem barba —, Sturm disse com agrado.
Então, o cavaleiro virou-se para saudar Caramon e Flint. Tasslehoff
correu atrás de mais cerveja, Tika tinha sido chamada para servir outras pessoas
na multidão que crescia.
— Saudações, Cavaleiro —, sussurrou Raistlin de seu canto.
O rosto de Sturm ficou sério enquanto ele se virava para cumprimentar o
outro gêmeo.
— Raistlin —, ele disse.
O mago puxou seu capuz para trás, deixando que a luz batesse em seu
rosto. Sturm era educado demais para dar mostras de seu espanto além de uma
leve exclamação. Mas seus olhos se arregalaram. Tanis percebeu que o jovem
mago estava sentindo um prazer cínico em ver seus amigos perplexos.
— Quer que eu lhe traga alguma coisa, Raistlin? — Tanis disse.
— Não, obrigado —, o mago respondeu, recolhendo-se para as sombras
mais uma vez.
— Ele não come praticamente nada —, Caramon disse num tom
preocupado — Eu acho que ele vive de ar.
— Algumas plantas vivem de ar —, Tasslehoff afirmou, voltando com a
cerveja de Sturm — Eu as vi. Elas flutuam acima do chão. Suas raízes retiram
alimento e água da atmosfera.
— Verdade? — Os olhos de Caramon se arregalaram.
— Eu não sei quem é o maior idiota —, disse Flint descontente — Bem,
estamos todos aqui. O que há de novo?
Todos? Sturm olhou para Tanis questionando — E Kitiara?
— Ela não virá —, Tanis respondeu prontamente — Nós tínhamos
esperança de que você talvez pudesse nos contar algo.
— Eu não — O cavaleiro franziu a testa — Nós viajamos juntos para o
norte e nos separamos logo depois de cruzarmos os Braços de Mar em direção
à Velha Solamnia. Ela disse que ia visitar parentes do pai dela. Essa foi a última
vez que a vi.
— Bem, eu suponho que é isso. — Tanis suspirou — E seus parentes,
Sturm? Você encontrou seu pai?
Sturm começou a falar, mas Tanis só ouvia parcialmente as histórias das
viagens de Sturm em sua terra ancestral, a Solamnia. Os pensamentos de Tanis
estavam em Kitiara. De todos seus amigos, ela era quem ele mais desejava ver.
Depois de cinco anos tentando tirar os olhos escuros e o sorriso mal humorado
de sua cabeça, ele descobriu que a saudade que ele sentia dela crescia dia após
dia. Incontrolável, impetuosa, cabeça quente, a espadachim era tudo que Tanis
não era. Ela era também humana, e amor entre humano e elfo sempre acabava
em tragédia. Mesmo assim, Tanis não conseguia mais tirar Kitiara de seu
coração, da mesma forma que ele não conseguiria tirar seu lado humano de seu
sangue. Libertando sua cabeça das memórias, ele voltou a ouvir a Sturm.
— Eu ouvi boatos. Alguns dizem que meu pai está morto. Outros dizem
que ele está vivo — Seu rosto se tornou sombrio — Mas ninguém sabe onde ele
está.
— Sua herança? Caramon perguntou.
Sturm sorriu, um sorriso melancólico que suavizou as linhas de seu rosto
orgulhoso — Eu a estou usando —, ele respondeu com simplicidade — Minha
armadura e minha arma.
Tanis olhou para baixo e viu que o cavaleiro carregava uma esplêndida,
ainda que antiga, espada de duas mãos.
Caramon se levantou para olhar por sobre a mesa.
— Ela é linda —, ele disse —já não se fazem mais espadas como essa
hoje em dia. Minha espada quebrou numa luta contra um ogro. Theros Ferro
Forjado colocou uma lâmina nova nela ainda hoje, mas me custou um bocado
de dinheiro. Então, agora você é um cavaleiro?
O sorriso de Sturm desapareceu. Ignorando a pergunta, ele acariciou o
punho da espada carinhosamente.
— De acordo com a lenda, esta espada só vai se quebrar se eu quebrar
—, ele disse — Foi tudo o que restou de meu pai...
De repente, Tas, que não estava prestando atenção, interrompeu.
— Quem são aquelas pessoas? — o kender perguntou num sussurro
estridente.
Tanis olhou para cima no momento em que os dois bárbaros passavam
pela mesa deles, na direção de algumas cadeiras vazias que se encontravam em
meio às sombras num canto perto da lareira. O homem era o homem mais alto
que Tanis já tinha visto. Caramon, com um metro e oitenta, batia apenas nos
ombros deste homem. Mas o peito de Caramon era provavelmente duas vezes
maior e seus braços, três vezes maior. Apesar de o homem estar enrolado em
peles que os bárbaros da tribo costumam usar, era óbvio que ele era magro
demais para sua estatura. O rosto, apesar da pele escura, estava pálido como o
de alguém que está doente ou sofreu bastante.
Sua companheira, a mulher para a qual Sturm tinha se curvado, estava tão
enrolada em uma capa de pele com capuz que era difícil saber alguma coisa
sobre ela. Nem ela, nem seu alto acompanhante olharam para Sturm quando
passaram.A mulher carregava um cajado simples adornado com penas à moda
bárbara. O homem trazia uma mochila bastante usada. Eles sentaram nas
cadeiras, aconchegaram-se em suas capas e conversaram entre si em voz baixa.
— Eu os encontrei vagando pela estrada fora da cidade —, Sturm disse
— A mulher parecia estar perto da exaustão e o homem também. Eu os trouxe
para cá e lhes disse que podiam comer comida e descansar esta noite. Eles são
pessoas orgulhosas e eu acho que teriam recusado minha ajuda, mas eles
estavam perdidos e cansados e —, Sturm baixou a voz, — existem coisas na
estrada hoje em dia que é melhor não enfrentar no escuro.
— Nós encontramos algumas dessas coisas e elas perguntaram sobre um
cajado —, Tanis disse de forma carrancuda. Ele descreveu seu encontro com
Cotiliquê Toede.
Apesar de ter sorrido durante a descrição da batalha, Sturm balançou a
cabeça.
— Um guarda Seguidor me perguntou sobre um cajado, lá fora — ele
disse — Cristal Azul, não era?
Caramon acenou com a cabeça e colocou a mão no ombro estreito de seu
irmão.
— Um dos guardas gosmentos nos parou —, ele disse — Eles queriam
confiscar o cajado de Raist, dá para acreditar nisso — 'para maiores
averiguações', eles disseram. Eu chacoalhei minha espada na cara deles, e eles
mudaram de idéia.
Raistlin moveu o braço afastando-o do toque do irmão, um sorriso
sarcástico em seus lábios.
— O que teria acontecido se eles tivessem tomado seu cajado? Tanis
perguntou a Raistlin.
O mago olhou para ele da sombra de seu capuz, seus olhos dourados
brilhando.
— Eles teriam morrido de forma horrível —, o mago sussurrou, — e não
pela espada de meu irmão!
O meio elfo gelou. As palavras que o mago disse de maneira suave, eram
mais assustadoras do que a bravata de seu irmão.
— O que será que é tão importante nesse tal cajado de cristal azul para os
goblins se disporem a matar para obtê-lo? —Tanis ponderou.
— Existem boatos de que o pior está por vir —, Sturm disse
silenciosamente. Seus amigos se aproximaram para ouvi-lo — Exércitos estão
se juntando ao norte. Exércitos de criaturas estranhas, não humanas. Fala-se
muito em guerra.
— Mas, o que? Quem? — Tanis perguntou — Eu ouvi a mesma coisa.
— E eu também —, Caramon completou — Na verdade, eu escutei...
Enquanto a conversa continuava Tasslehoff bocejou e se virou para o outro
lado. O kender ficava entediado com facilidade. Ele olhou à volta da
Hospedaria à procura de algo que o distraísse. Seus olhos repousaram no velho
que ainda contava histórias para a criança perto do fogo. O velho tinha uma
audiência maior agora, os dois bárbaros estavam ouvindo, Tas notou. Então,
seu queixo caiu.
A mulher tinha jogado o capuz para trás e a luz do fogo refletia no seu
rosto e no seu cabelo. O kender fitava com admiração.
O rosto da mulher era como o rosto de uma estátua de mármore,
clássica, pura, fria.
Mas foi seu cabelo que chamou a atenção do kender. Tas nunca tinha
visto um cabelo igual aquele antes, especialmente no povo da planície que
normalmente tinha cabelo e pele escuros. Nenhum joalheiro fiando fios
derretidos de prata e de ouro teria sido capaz de criar o efeito que o cabelo prata
dourado dessa mulher produzia brilhando à luz do fogo.
Uma outra pessoa ouvia o velho. Era um homem vestindo um rico
manto marrom e dourado que os Seguidores costumavam usar. Ele sentou-se
em uma mesa pequena e redonda, bebendo vinho quente. Havia várias canecas
vazias a sua frente e, enquanto o kender o observava, ele pediu mais uma num
tom irritado.
— Aquele é Hederick —, Tika sussurrou quando passava pela mesa dos
companheiros — O Alto Teocrata.
O homem pediu novamente, o olhar dardejando Tika. Ela se apressou em atendê-lo. Ele falou de forma rude com ela, reclamando do mau
atendimento. Parecia que ela ia responder alguma coisa, mas ela mordeu o lábio
e ficou calada.
O velho chegou ao fim de sua história. O menino suspirou e perguntou
cheio de curiosidade: — Todas as histórias de deuses antigos são verdadeiras,
meu Velho?
Tasslehoff viu Hederick franzir a testa. O kender tinha esperança de que
ele não fosse incomodar o velho. Tas tocou no braço de Tanis para lhe chamar
a atenção, acenando com a cabeça na direção do Seguidor com um olhar que
dizia que poderia haver confusão.
Os amigos se viraram. Todos ficaram perplexos com a beleza da mulher
da planície. Eles a fitaram em silêncio.
A voz do velho tinha claramente se imposto sobre a monotonia das
outras conversas no saguão.
— Sem dúvida, minhas histórias são verdadeiras, meu filho O velho
olhou diretamente para a mulher e seu acompanhante — Pergunte a esses dois.
Eles trazem histórias deste tipo em seus corações.
— Verdade? O menino virou-se ansiosamente para a mulher — Você
pode me contar uma história?
A mulher encolheu-se de volta nas sombras, seu rosto mostrou-se
amedrontado quando ela percebeu que Tanis e seus amigos olhavam para ela.
Seu acompanhante aproximou-se dela para protegê-la, a mão dele movendo-se
em direção a sua arma. Ele olhou com um ar ameaçador para o grupo,
principalmente para o guerreiro fortemente armado, Caramon.
— Idiota nervoso —, Caramon comentou, suas mãos buscando a
espada.
— Eu consigo entender porque —, Sturm disse — Guardando um
tesouro desses. Ele é o guarda-costa dela, a propósito, eu descobri pela conversa
deles que ela é uma pessoa da família real da tribo deles. Embora, eu imagino,
pelos olhares que eles trocaram, que o r
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Dragon Lance Dragões Do Crepúsculo Do Outono Empty Re: Dragon Lance Dragões Do Crepúsculo Do Outono

Mensagem por Arcanine-arcanon em Ter 17 Maio 2011 - 18:17

Ok, ok... Dragonlance, dragões do crepúsculo do outono é um livro da autora J.R.R Tolkien! Crie suas próprias histórias, não plagie. Fanfic trancada. Levará Alerta por plágio.

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